Tem a aventura de um homem que aos 30 anos deixa
a direção de uma empresa para aprender
Biologia, aos 40 está no mato seguindo um animal
raro e esquivo no caminho da extinção
e aos 50 comanda uma arca no Pontal do Paranapanema,
onde
bichos, pesquisadores, assentados do MST e fazendeiros
criados numa vasta usina de grilagens tentam aprender
a viver juntos. Uma mulher que larga a loja de decorações
no Rio de Janeiro e o curso de História da
Arte na Flórida para acompanhar os passos do
marido até uma cabana de madeira no interior
de São Paulo, onde descobre que havia nascido
para a educação ambiental. Um milionário
inglês que aplica a fortuna da família
em bolsas de redenção do planeta e vira
escritor de best-sellers. Onças e antas que,
zanzando pelos descampados da vizinhança, traçam
o roteiro da própria
sobrevivência, marcando com suas pegadas as
linhas de reflorestamento que ligam por túneis
de árvores um santuário ilhado no Morro
do Diabo aos sertões matogrossenses. E, como
se isso tudo não bastasse, mateiros e caiçaras,
PhDs e matutos, artesãos anônimos e Sua
Alteza Real a Princesa Anne cruzam as veredas dessa
ONG que não é só ecológica,
mas também ecumênica, pois se sente tão
à vontade em madrugadas de
trabalho ao relento quanto em noites de gala no palco
mais que londrino da Royal Geographical Society.
O Ipê tem uma grande história. Tão
grande que raramente cabe nos limites estreitos que
a imprensa brasileira reserva à natureza. O
que é uma perda sobretudo para a imprensa
brasileira. Se tratasse mais desses assuntos ela estaria
cuidando em primeiro lugar da biodiversidade de suas
páginas e programas, onde os mesmos assuntos
oficiais quase sempre se repetem até que o
país se canse deles definitivamente.
Mas as grandes histórias nem sempre são
notícia. Notícia é de preferência
coisa feita às pressas. Grandes histórias
exigem uma certa ponderação. Uma pode
ser o começo de grandes coisas que podem acontecer
ou não. A outra só existe quando as
novidades têm começo, meio e fim.
Reconheço que é meio difícil
encaixar grandes histórias em formatos que
geralmente foram feitos sob medida para as notícias.
Tente-se, por exemplo, dizer tudo o que é o
Ipê em poucas palavras. O resultado, como se
demonstrou acima, talvez seja um aglomerado de acontecimentos
que, na escala habitual dos feitos humanos, pertencem
menos ao jornalismo do que à ficção.
Como os jornalistas raramente atravessam essa fronteira
entre o convencional e a inverossimilhança,
o leitor deste livro que nunca ouviu falar do Ipê
pode ter a certeza de estar em boa companhia. Mas
não sabe o que está perdendo. O Instituto
de Pesquisas Ecológicas é menos conhecido
do que todos nós merecemos, ele inclusive.
Se pudesse contar com recortes de jornais, retalhos
de revistas e citações na TV tudo o
que o Ipê já fez de importante em seus
onze anos de existência - as fatalidades que
evitou, os brasis que descobriu, os céticos
que converteu, as paisagens que transformou, os inimigos
que reconciliou e as vocações que redimiu
- se pudesse contar tudo isso só com a colagem
de suas aparições na imprensa, este
livro não seria este livro. Seria um calhamaço
desmesurado.
Se ele saiu assim, tão breve para uma história
tão importante, é por ser mesmo indispensável.
Indispensável não só para o Ipê,
mas para as redações do país
inteiro que ainda o ignoram. Não é todo
dia que se materializa diante de um repórter
um caso como este - ou seja, o caso singular do desvio
vocacional que em poucos anos levou o biólogo
Claudio Padua e sua ONG, trilhando ínvios caminhos
num cipoal de descrença, a deixar no Pontal
do Paranapanema pegadas de regeneração
ambiental que só um satélite em órbita
terrestre pode fotografar de corpo inteiro. Essa é
uma medida inigualável de grandeza. Na ficha
do Ipê, o 3x4 é feito pela mesma câmera
que retrata o planeta.
Por: Marcos Sá Corrêa
*Marcos Sá Corrêa
é jornalista. Escreve no www.nominimo.com.br e é um dos diretores do site O ECO. É formado em história, tem trabalhos
como fotógrafo e publicou quatro livros. Foi
editor-chefe do Jornal do Brasil e diretor de redação
do jornal O Dia, além de colunista das revistas
Época e Veja.