UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DO MOSAICO DE UCs DO BAIXO RIO NEGRO
O mosaico proposto será constituído por seis unidades de conservação, sendo três de proteção integral e três de uso sustentável, conforme critérios do SNUC. As unidades de conservação que aderiram ao projeto são:
a) Proteção Integral
Estação Ecológica de Anavilhanas (Decreto Federal 86.061/1981), gerida pelo IBAMA.
Parque Estadual do Rio Negro - Setor Norte (Decreto Estadual 16.497/1995), gerido pelo IPAAM.
Parque Estadual do Rio Negro - Setor Sul (Decreto Estadual 16.497/1995), gerido pelo IPAAM.
b) Uso Sustentável
APA Estadual da Margem Esquerda do Rio Negro - Setor Aturiá-Apuazinho (Decreto Estadual 16.498/1995), gerido pelo IPAAM.
APA Estadual da Margem Direita do Rio Negro - Setor Puduari-Solimões (Decreto Estadual 16.498/1995), gerida pelo IPAAM.
Reserva de Desenvolvimento Sustentável Municipal do Tupé (Lei Municipal 671/2002), gerido pelo SEDEMA.
1.) Importância do mosaico para a manutenção dos recursos ambientais
Sub-bacia hidrográfica relevante para a manutenção da vazão dos rios, contribuindo para a retenção e transporte de sedimentos e nutrientes e para o transporte fluvial.
Serviços ambientais dos ecossistemas florestais: manutenção do regime hídrico; estabilização climática; estocagem de carbono; alta produtividade primaria; controle de processos erosivos; manutenção da biodiversidade; manutenção da temperatura; proteção do solo.
Os ecossistemas florestais fornecem bens como sementes, madeira, essências, gomas, frutos, raízes, fibras, cipós, plantas medicinais, etc., com grande importância para o extrativismo e para a agricultura das populações locais, contribuindo para a reprodução cultural dos povos.
O mosaico protege espécies raras de aves como o Nonnula amarocephala, o Nyctibius leucopterus, a Myrmeciza desjuncta, Hemitriccus inornatus, Choquinha-do-tapajós (Myrmoterula Klangesi), Arapaçu-ferrugem (Xiphorhynchus necopinus), formigueiro-liso (Myrmoborus lugubris) e bico-chato-de-orelha-preta (Tolmomyias sulphurescens). Possui também inúmeras espécies ameaçadas como o gavião-pato (Spizastur melanolecus), Gavinhão-de-penacho (Spizaetus ornatus), Gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), Uiraçu ou Gavião-real-verdadeiro (Harpia harpija) e o Gavião-real (Morphnus guinensis)
Quanto à biota aquática, a região apresenta, em termos de fauna ictiológica, um conjunto de espécies de peixes representativos do rio Negro com mais de 334 espécies distribuídas em seus vários ambientes, como lagos, rios e igarapés. Dentre estes, muitos possuem grande importância alimentar para as populações ribeirinhas.
Com relação aos mamíferos aquáticos, destaque especial para o peixe-boi (Trichechus inunguis) que encontra no baixo curso do rio Negro (principalmente em Anavilhanas) um raro abrigo à forte pressão de caça que sofre desde o começo da colonização do Brasil e que o colocou na lista das espécies ameaçadas.
Entre os mamíferos terrestres, a região do baixo Negro serve de abrigo para mais de dez espécies ameaçadas de extinção como: a onça-pintada (Panthera onca) a jaguatirica (Felis pardalis), o cachorro-do-mato-de-orelha-curta (Atelocynus microtis) e os primatas do gênero Cacajao, Ateles, Lagothrix e Aotus, além de pelo menos uma espécie de sagui. Além disso, a região abriga espécies que servem como alimento às populações ribeirinhas e indígenas. A região é caracterizada por uma pobre herpetofauna e de anfíbios, mas, mesmo assim, há algumas espécies raras (porém, não em fase de extinção, como é o caso das cobras Atractus lineatus e Siphlophis cervinus e o sapo (Hidrolaetare Schmidt)i. Existem também algumas importantes espécies de crocodilianos e de quelônios.
2.) Aspectos ambientais únicos ou de grande relevância para o bioma
O Baixo Rio Negro compõe um importante cenário biológico, onde abriga ecossistemas muito delicados, principalmente pela condição de acidez das suas águas e pelas condições de oligotrofia. Dentre a sua vegetação, ele é composto principalmente por cinco ecossistemas: A Floresta de Igapó e a Floresta de Terra Firme, Campina e Capinarana, Caatinga-Gapó e Chavascal. As campinas e campinaranas, as caatingas-gapó e os chavascais, possuem especial significado conservacionista, pois possuem distribuição restrita e são encontrados em reduzido número de áreas protegidas, além de possuírem espécies com alto grau de especialização e endemismo. Apresenta-se uma breve descrição destes ecossitemas e suas relevância para o bioma e para conservação:
Floresta de Igapó: termo Igapó é empregado para designar áreas de florestas inundáveis localizadas ao longo dos rios de águas claras e pretas e também algumas áreas de encharcamento - devido à proximidade de terra firme. Sua vegetação é caracterizada por uma pobre quantidade de biomassa e uma grande variedade de plantas de baixa diversidade. Esse ecossistema contribui significativamente para alta diversidade da ictinofauna do baixo do rio Negro, pois além de abrigo, ela fornece a maioria dos alimentos consumidos pelos peixes, seja na forma de frutos, sementes e/ou folhas, seja como insetos e outros vertebrados. A floresta de Igapó do Baixo Rio Negro é caracterizada por baixa diversidade, porém essas áreas são e extremamente interessantes, em face de distribuição restrita de algumas espécies concernente a esse hábitat. Estudo realizado no plano de manejo da Estação Ecológica de Anavilhanas identificou a presença restrita das comunidades de Oriza parenis, Eugenia inundata, Simmeria paniculata, Coocoloba ovata, Eschweilera tenuifolia, Heterostemum mimisoides, Licania densifolia, Nectandra amazonum, e Astrocarium jauari, Virola surinamensis, Swartzia laevicarpa e a Ocotea cymbaru. Sendo que Virola surinamensis, Swartzia laevicarpa e a Ocotea cymbaru são, espécies que sofrem alto grau de exploração, devido à demanda comercial.
Floresta de Terra Firme: Esta fisionomia foi caracterizada como Matas Pesadas ou Densas, com grande estoque de biomassa, onde sua escuridão exige grande especialização de mecanismo à economia de luz. A floresta de Terra Firme constitui um mosaico de características ecológicas e de microclima, onde não ocorre escassez ou excesso de água, fator que contribui para maior diversidade da fauna e flora. Dentre algumas espécies representativas de Terra Firme, foram encontradas no Baixo Rio Negro amostras de Eschweilera coreacea (matá-verdadeiro) E. grandiflora (m. matá-rosa), Licania heteromorfa, Protium hebetatum (breu vermelho), chrysophyllum sanguinollentumi, Guatteria olivacea (envireira) e Oenocarpus bacaba (bacaba), única palmeira de dossel. Das espécies emergentes pesquisadas, destacam-se: Caryocar glabrum (piquiarana), Caryocar Vilosum (piquiá) e Parkia decussada (faveira). O Caryocarsp, Aspidosperma sp e Mezilaurus itauba, são as principais espécies exploradas, devido à pressão do mercado.
Floresta de Campina e Capinarana:
As florestas de Campina e Capinarana são vegetações ralas e abertas, que se desenvolvem em áreas esparsas de areia branca, apresentam uma baixa diversidade e um alto grau de escleromorfismo. Trata-se de um dos hábitats amazônicos mais difíceis para colonização de plantas, principalmente pelos fatores ambientais críticos como falta de nutrientes, temperatura alta e "stress" hídrico. No geral, as Florestas de Campina/Capinarana do Rio Negro caracterizam-se por apresentar um grande número de endemismo, com áreas de dispersão restrita. Dentre as espécies estudadas no plano de manejo da Estação Ecológica de Anavilhanas, as gramíneas e Cyperaceas (Langenocarpus sabanenses) merecem destaque.
Vegetação de Caatinga-gapó (Campina inundável): Em alguns rios de água preta, tal como o rio Negro, em algumas partes de seu curso, a amplitude de terra inundada é inteiramente revestidas por arbustos e pequenas arvoretas de alturas iguais, na borda das quais a floresta virgem sobe abruptamente a alturas duas vezes superior às margens e é chamada pelos moradores locais de "Caatiga-gapó", que apresenta uma freqüência de floração muito maior que em outros ambientes. Todavia, seus frutos dificilmente são comestíveis e as árvores não crescem na magnitude daquelas encontradas na floresta densa. Das poucas espécies estudadas no baixo rio Negro às Jaqueshusena purpúrea, a Perissocarpa e a Plinia sp, merecem destaque pela sua raridade.
Campinarana Arbórea Densa Encharcada (Chavascal): Trata-se de uma faciação da floresta de Capinarana que ocorre predominantemente na bacia do Rio Negro, em intrincada rede hidrográfica, que nos períodos de chuva fica encharcada. A formação é fisionomicamente composta por indivíduos arbóreos finos, formando uma massa vegetal compacta. Na sua composição, há predominância de palmeiras como Patuá (Ocnocarpus patuai), açai-chumbinho (Euterpe precatória), e bussu (Manicaria martiana) e entre as espécies lenhosas, predominam o macucu d'água (Henriquezia sp) e a envirinha (Xylopia sp).
3.) Ameaças em comum à conservação da biodiversidade das UC's
Caça comercial de fauna silvestre;
Extrativismo predatório de madeira;
Pesca comercial predatória;
Biopirataria, tráfico de animais e plantas;
Turismo desordenado;
Intensificação e expansão da agricultura tradicional (monoculturas);
Expansão urbana de Manaus, Novo Airão, Iranduba e Manacapuru.
4.) Potencial de ecodesenvolvimento
Potencial Ecoturístico pela beleza cênica e ecossistemas conservados, além da presença de populações tradicionais e indígenas. O IPÊ possui um programa de "Ecoturismo com Base Comunitária" em andamento no entorno da ESEC de Anavilhanas;
O manejo florestal não-madeireiro corresponde a um relevante potencial da região, a ser trabalhado com as populações locais. Existem na região espécies com bom valor econômico, medicinal e alimentar, através dos frutos, sementes, essências, fibras e etc;
Os Sistemas Agroflorestais, quando realizados através do método de adensamento de capoeiras, e na lógica da agroecologia familiar, pode favorecer o bem estar econômico e alimentar das populações locais, contribuindo para minimizando o impacto da agricultura sobre o solo e a floresta primária, revitalizando as práticas agrobiodiversas;
A piscicultura apresenta-se como outro potencial econômico interessante para a região e, quando realizado em pequena escala, em nível comunitário, permitiria ganhos financeiros e alimentares;
O artesanato é intrínseco à cultura indígena e cabocla do baixo rio Negro. Geralmente são utilizados materiais da floresta como fibras, madeiras e sementes, para a confecção das artes;
Encontra-se na região do mosaico um importante capital social, representado pelas populações ribeirinhas e indígenas que habitam esta área. Elas possuem conhecimentos aprofundados sobre os elementos e processos ecológicos da região, contribuindo para o seu ecodesenvolvimento da região. Possuem grande potencial organizacional. Estas características devem ser consideradas, inseridas e potencializadas nos programas socioambientais, num contexto de diálogo de saberes.
Potencial e necessidade de realização de pesquisas e monitoramento sobre a ecologia da fauna e flora da região; sobre aspectos abióticos, pesquisa em etnobiologia, antropologia, sociologia e pesquisas econômicas.