Aula do MBA com Carlos Nobre trouxe os desafios e as perspectivas para a Amazônia

“Nós temos o maior potencial biodiverso do mundo, seja na Mata Atlantica, na Amazônia, na Caatinga, etc. O que nos estamos lucrando disso? Nada. Nós nunca enxergamos realmente esse potencial. Tem que haver uma mudança disruptiva, sistêmica, com agregação de valor, inclusiva e que mantenha floresta em pé e rios fluindo”. Esse é o maior desafio para superar os problemas socioambientais e as mudanças climáticas no Brasil, segundo o climatologista Carlos Nobre.

O cientista, membro do Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), foi o professor convidado desta sexta-feira no curso MBA em Gestão de Negócios Socioambientais, da ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade, braço educativo do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas. A provocação de Nobre faz todo sentido. Enquanto essa riqueza biodiversa tem um enorme potencial, ela tem se perdido e virado fumaça. Dados de pesquisa de Carlos Nobre e pares apontam que em 2050, é possível que na Amazônia, por exemplo, possamos perder 60% da floresta e todo o seu potencial social e econômico.

“ Amazônia está em ponto de ruptura. Estamos no nosso limite do desmatamento. O tipping point da Amazônia não pode superar 25%. Estamos em 17% e os índices de desmatamento e queimadas só aumentam”, afirmou em aula no campus de Nazaré Paulista (SP).

Podemos evitar esse tipping point? Para o professor, é totalmente possível. O cientista tem trabalhado no conceito chamado Amazônia 4.0.

“O Amazônia 4.0 é uma proposta que já tem caminhado. Diz muito sobre como aproveitar os ativos da Amazônia de maneira sustentável – digital, inclusiva, com compartilhamento equitativo dos benefícios. Com modernização das cadeias produtivas madeireiras, restaurando a pecuária, utilizando os sistemas agroflorestais”, afirma.

O professor compara, por exemplo, a produção do açaí às produções tradicionais de gado e soja. Segundo ele, dados do IBGE apontam que a lucratividade da carne é no máximo 100 dólares por hectare/ano, a da soja, de 200 dólares por hectare/ano, enquanto a do açaí, que é uma atividade extrativista, que mantém a floresta em pé, é de 200 dólares, ou seja, duas vezes maior que a pecuária, com impacto significativamente menor e com inclusão de mais famílias na produção.

“O açaí beneficia mais de 400 mil pessoas. Mais de 200 mil delas saíram da pobreza por causa dessa cadeia, mesmo ela ainda não sendo totalmente modernizada. É um exemplo concreto de industrialização e virou um produto mundial. Dados do IBGE mostram que o valor total da produção em 2017, foi de 3,7 bilhões de reais em 140 mil hectares. A soja, por sua vez, usou 350 mil hectares e o valor total da produção foi de 1 bilhão de reais”, comenta.

Na iniciativa Amazônia 4.0 de Nobre, a proposta é implementar laboratórios de inovação e criatividade que levem capacitação para a população moradora do bioma, incluindo jovens especialmente, e pensando em modelos que possam ser replicados e desenvolvidos nas próprias comunidades. A ideia é desenvolver laboratórios para co-criação de produtos de Cupuaçu e Cacau, Castanha e também trabalhar com a área Genômica, incluindo a biomimética.

“É preciso um novo olhar para a Amazônia. E essa nova maneira de enxergar nossos ativos e a forma de trabalhar com eles vai nos permitir que a maior parte dos empregos não seja manual, mas que envolva sim a criatividade, a invenção. Tem seus desafios. Um deles é como implementar bio fábricas com energia solar em  áreas remotas, por exemplo. Mas estou otimista”, conclui.

O MBA em Gestão de Negócios Socioambientais é uma iniciativa ESCAS/IPÊ com apoio pedagógico do CEATS-USP.