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Pessoas de vários lugares do mundo já estão apoiando o IPÊ na restauração do Sistema Cantareira pelo Tree Nation. A plataforma internacional reúne 243 projetos de 33 países que têm o objetivo de plantar florestas para enfrentar as mudanças climáticas e que são apoiados por meio de doações.

O Projeto Semeando Água, do IPÊ, está entre as três iniciativas brasileiras ativas inscritas na plataforma.Como o site é em inglês, o projeto está registrado como Sowing Water.

No site Tree Nation, é possível escolher com qual projeto contribuir com o plantio de árvores, por meio da doação de valores que serão destinados à restauração florestal. A plataforma conta ainda com uma opção para presentear amigos e familiares com o plantio de árvores e todos ganham: seu amigo, você, o planeta, a humanidade.

Há dois meses na plataforma, o Semeando Água já contabiliza cerca de 1.000 árvores financiadas. A meta inicial é chegar nas 40 mil.

“É muito gratificante perceber que em tão pouco tempo já conseguimos contar com o apoio de pessoas físicas e empresas da Itália, França, Alemanha, Bélgica, Reino Unido, Austrália, Canadá e Estados Unidos. Nesse momento, estamos em pleno período de seca no Sudeste do Brasil, então precisamos aguardar a época das chuvas – de setembro a março – para plantar”, pontua Andrea Pupo, educadora ambiental do Projeto Semeando Água à frente dessa parceria.

Cada projeto conta com uma página própria na plataforma onde são compartilhadas atualizações d do dia a dia da iniciativa. Nesse espaço também é possível conhecer a equipe do projeto, as espécies que serão plantadas por cada iniciativa, assim como o custo por muda.

“No Semeando Água, cada muda será acompanhada por cinco anos, o que inclui ações que façam frente, por exemplo, a possíveis ataques de formigas, uma das principais ameaças. Esse acompanhamento é fundamental para o sucesso da restauração”, complementa Pupo.

Por que plantar árvores no Sistema Cantareira?

O plantio de árvores é estratégico no Sistema Cantareira. “Já plantamos 50 mil mudas no Sistema Cantareira . Sabemos que o desafio é gigantesco, mas reconhecemos que esse é o caminho mais seguro, o plantio de árvores nas Áreas de Preservação Permanente que são aquelas áreas próximas às nascentes e aos cursos d’água. Com o aumento das áreas cobertas por florestas, a água da chuva encontra melhores condições para infiltrar no solo, assim a água é liberada aos poucos, em especial nos períodos de estiagem. O melhor lugar para armazenar água da chuva é no solo. No cenário atual, com tamanho déficit de árvores, ficamos praticamente reféns da chuva sobre as bacias e desperdiçamos a água da chuva sobre o solo compactado que não consegue infiltrar”, explica Alexandre Uezu, coordenador do Projeto.

Sobre o projeto

O Projeto Semeando Água atua em oito municípios do Sistema Cantareira: Bragança Paulista, Joanópolis, Mairiporã, Nazaré Paulista e Piracaia, em São Paulo, além de Camanducaia, Extrema e Itapeva, em Minas Gerais. Nessa região, o déficit de árvores em áreas próximas às nascentes e aos cursos d’água chega a 60%, o equivalente a 35 milhões de árvores em uma área de 21 mil hectares (ou 21 mil campos de futebol). A restauração dessas áreas é estratégica para aumentar a resiliência do Sistema Cantareira e afastar a possibilidade de uma nova seca, como complementa Uezu. “Enfrentamos uma grave seca entre 2013 e 2015, em resposta, tivemos adequações de infraestrutura, como transposição de bacias e redução das pessoas atendidas pelo Sistema Cantareira; mas aumentar a resiliência do Sistema Cantareira continua sendo a estratégia mais segura e a restauração florestal tem papel decisivo”. Apenas na região metropolitana de São Paulo, 7,6 milhões de pessoas recebem água do Sistema Cantareira, além das regiões de Campinas e de Piracicaba. Antes da crise hídrica, 9 milhões de pessoas eram atendidas pelo Sistema apenas na região metropolitana de São Paulo.

Saiba mais sobre o Projeto Semeando Água: https://semeandoagua.ipe.org.br/

 

Um grande encontro, no dia 30 de julho, marcou oficialmente a formação da rede de parceiros do projeto LIRA - Legado Integrado da Região Amazônica. De forma remota, devido à pandemia, o IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas realizou a primeira reunião entre os parceiros do projeto, que irão atuar em rede pela conservação das 47 Áreas Protegidas da Amazônia, um território que abrange 40 milhões de hectares. São 82 instituições, entre associações indígenas e extrativistas, organização da sociedade civil, empresas, cooperativas, instituições de pesquisas e governamentais. Essa rede implementará ações de fomento à bioeconomia, planejamento e gestão territorial, integração regional, estruturas de governança, monitoramento e proteção.  

Mais de 70 pessoas, de várias Organizações da Sociedade Civil da Amazônia, além dos financiadores do projeto - Fundo Amazônia/BNDES e Fundação Gordon e Betty Moore - e órgãos governamentais (ICMBio, SEMA-AM, IDEFLOR-Bio, SEDAM-RO e SEMA Almerin PA) passaram o dia conectados, dialogando sobre os impactos das ações que serão implementadas frente aos cenários de pandemia e pós-covid, principalmente quanto aos benefícios dessas ações para as Áreas Protegidas e os povos tradicionais que vivem nesses territórios.

“Este é um momento de integração importante, no qual reunimos todos aqueles que vão atuar conosco e construir a rede de ação do LIRA. Temos a consciência coletiva no grupo de que as áreas protegidas garantem o futuro da Amazônia, por meio de seus ativos naturais e sabedoria ancestral dos povos da floresta. Sabemos o quanto é necessário fortalecer essas áreas protegidas para manter a floresta em pé, contribuir com a segurança climática, conservar a biodiversidade, a cultura e o favorecer o desenvolvimento socioeconômico em longo prazo. O LIRA é um arranjo colaborativo que se propõe a tornar eficiente a execução direta de ações nas áreas protegidas numa escala geográfica que abrange cinco estados e 54 municípios. Nosso plano é potencializar e multiplicar o impacto para beneficiar 35 mil pessoas diretamente”, afirma Fabiana Prado, Gerente de Articulação do IPÊ e responsável pelo projeto.

O projeto LIRA/IPÊ é o segundo maior programa de conservação brasileiro. Foi inspirado e desenhado para complementar o Programa ARPA – Áreas Protegidas da Amazônia, incluindo as Terras Indígenas à iniciativa. O arranjo executivo do LIRA envolve o Fundo Amazônia, a Fundação Moore - instituição internacional, o IPÊ e a rede de parceiros. Um formato inédito, como define André Ferro, gerente de Meio Ambiente e Gestão do Fundo Amazônia/BNDES.

“Em 2016, o Fundo Amazônia queria construir uma carteira forte de projetos em formatos que tivessem um grande impacto, e foi nessa linha que a gente discutiu o LIRA. Algo que envolvesse várias instituições em um volume que pudesse ser administrado, e que tivesse um impacto. A parceria com uma organização internacional alocando recurso para isso acontecer também é inédita. Foi ótimo ter esse formato diferente de projeto, cada um colocando uma parcela de recursos, mas no final o resultado é de todos, incluindo as organizações hoje aqui presentes”, afirmou André, durante o encontro.

O LIRA promoverá aumento na efetividade de gestão das áreas protegidas para que formem uma barreira e sejam um vetor resiliente para manutenção da floresta em pé e para o combate a grandes ameaças. Para isso, o projeto promoveu um edital, em 2019, e selecionou oito Organizações da Sociedade Civil que vão trabalhar em conjunto com outras 37 instituições locais, com uma série de ações no território: estruturação e fomento aos negócios de impacto social relacionados à bioeconomia; elaboração e implementação de plano de gestão territorial e ambiental (PGTA); planos de manejo florestal; mecanismos de governança; sistemas de monitoramento e proteção; uso de tecnologias para gestão e proteção; integração com desenvolvimento regional; e acesso as políticas públicas.

A Associação de Defesa Etnoambiental Kanindé é uma dessas organizações participantes, por meio do projeto “Conectando Terras Indígenas”, em Rondônia. O projeto vai implementar planos de gestão em áreas protegidas na região, fortalecendo a identidade Amazônica, garantindo direitos de povos indígenas e populações tradicionais. “Isso é superimportante no momento que vivemos hoje. Esse projeto faz conexão com várias outras entidades na Amazônia, vamos além das associações indígenas e reservas extrativistas que já atuamos, em uma aliança com outras organizações. Isso é fundamental na defesa dos territórios, da identidade e das associações e população amazônica. Pra nós, da Kanindé, é muito importante estar nessa aliança pelos povos da Amazônia”, comenta Ivaneide Bandeira Cardozo.

Conheça todas as instituições selecionadas no LIRA.

Conheça os rostos por trás dos projetos. Siga a gente no Instagram!

A rede de cooperação criada entre as instituições é um momento que define o andamento e o futuro do projeto, conforme relata Rafael Almeida, do BNDES. “Essas reuniões são momentos superimportantes e emblemáticos. É um marco histórico. Acho que esse projeto é inovador por apontar blocos de trabalho específicos em toda Amazônia, contando com a contribuição de cada um e que vai gerar impacto para o Brasil”, diz.

Na reunião, Marion Adeney, responsável pela Iniciativa Andes-Amazônia, da Fundação Gordon e Betty Moore, afirmou que a conexão em rede que o projeto proporciona a partir de agora é o ponto chave de sucesso do projeto. A fundação, que trabalha em projetos de larga escala na Amazônia, apostou no LIRA por ser uma iniciativa de impacto durável e mensurável. 

“Instituições, apoiadores, comunidades e povos indígenas (que são fundamentais para o sucesso de qualquer projeto na Amazônia), governo, sociedade civil e o setor privado... Estamos todos juntos, em colaboração para o futuro sustentável da Amazônia e dos povos da floresta. A colaboração e a parceria com o BNDES é superimportante pensando na durabilidade financeira nessas áreas no futuro. Todos sabemos que esse momento é o mais difícil que a gente tem visto na conservação e também um momento difícil na vida das pessoas, que estão ameaçadas de uma maneira muito profunda. Mas eu espero que com esse projeto e com toda essa paixão e dedicação, a gente possa continuar a proteger essas áreas tão especiais e os povos da floresta que moram dentro delas”, disse.

Para saber mais sobre o LIRA, acompanhe nossas redes sociais e nosso site lira.ipe.org.br

 

 

A ESCAS/IPÊ - Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade deu início às aulas da turma modular do Mestrado Profissional 2020, do campus Nazaré Paulista (SP).  São 28 alunos, que buscaram o curso com interesses diversos: de manejo de fauna à ecologia urbana, da sustentabilidade empresarial ao empreendedorismo nas comunidades. 

“Os temas revelam a diversidade no perfil profissional dos alunos da ESCAS que inclui – apenas nesta turma – biólogos, gestores ambientais, ecólogos, advogados, engenheiros em diversas áreas, educadores, psicólogos, cientistas sociais, entre outros”, revela Cristiana Saddy Martins, coordenadora do Mestrado Profissional em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável.  

Para a primeira semana de aula, a escola promoveu um encontro a distância para que os alunos compartilhassem experiências profissionais e falassem das expectativas com o Mestrado. Até sexta 31/07,  a turma terá as primeiras aulas de Metodologia Científica e de Ecologia, que são as disciplinas estruturantes do curso.

“A turma Mestrado 2020 fará todo o primeiro módulo (um semestre) de maneira remota. O próprio processo seletivo pela primeira vez foi totalmente online, o que contribuiu para a participação de profissionais de outras regiões do país” pontua Cristiana. 

Pelo formato modular, o Mestrado Profissional costuma atrair profissionais de outras cidades e estados próximos, mas com a pandemia houve uma procura ainda maior. Além de alunos de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais – que são estados mais próximos, a turma conta também com profissionais do Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul, Pará, Amapá e Rondônia. 

Desde o início de suas atividades, há 11 anos, a ESCAS/IPÊ conta com apoio de diversos parceiros, entre empresas, agências internacionais e pessoas físicas.

 

Interessado em participar da seleção da próxima turma?  Preencha o formulário e receba notícias sobre o próximo processo seletivo. https://forms.gle/vbJiF39tSKiDenyx5

Saiba mais: https://escas.org.br/mestrado

 

 

Pesquisadores do projeto Tatu-Canastra, realizado pelo IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas e o Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS), comemoram em 30 de julho a primeira década do projeto que tem como marca registrada a inovação. 

Nesses 10 anos, a iniciativa documentou o importante papel dos tatus como engenheiros dos ecossistemas e gerou dados consistentes sobre a ecologia espacial das espécies e a sua seleção de habitats. Estudos sobre saúde, genética, dieta e reprodução completam essa pesquisa que é referência no Brasil.

TatuNo Projeto, pesquisadores registraram, pela primeira vez na história, por meio de cameras trap (armadilhas fotográficas), um filhote de tatu-canastra na natureza. Em 10 anos de projeto, a equipe já registrou e monitorou quatro tatus filhotes.

O projeto Tatu-Canastra começou no Pantanal do Mato Grosso do Sul (fazenda Baía das Pedras), em 2010, e expandiu suas ações, ao longo dos anos, para áreas de Cerrado (Mato Grosso do Sul) e da Mata Atlântica (Minas Gerais e Espírito Santo), chegando ao Chaco da Argentina. De volta ao Brasil, na Amazônia, o projeto realizou estudo sobre atropelamentos em parceria com instituições nacionais e internacionais.

O maior dentre as 20 espécies de tatus, o tatu-canastra (Priodontes maximus) pode chegar a 1.5 m de comprimento (do focinho à cauda) e pesar mais de 50 quilos. É um animal classificado como vulnerável pela lista vermelha de espécies ameaçadas da IUCN – União Internacional para Conservação da Natureza. 

Engenheiros da natureza beneficiam também outras espécies

“Embora raramente visto, o tatu-canastra é uma espécie que precisa ser melhor compreendida e protegida. Identificamos que eles desempenham papel fundamental na comunidade ecológica como engenheiros dos ecossistemas a partir das escavações que fazem para suas tocas. Dezenas de animais se beneficiam da cavação do tatu, seja na própria toca ou fora dela, como refúgio térmico, abrigo contra predadores, área de alimentação ou de descanso. A anta e até mesmo onças-pardas foram fotografadas usando o monte (da cavação do tatu) como um ponto de descanso. Muitas espécies procuraram presas no local (lagarto, teiú, pequenos roedores, quatis) e também na entrada da toca (seriema, pequenos roedores, guaxinim, jaguatirica, irara)”, comenta Arnaud Desbiez, coordenador do Projeto Tatu-Canastra.  Equipe Tatu Small

As tocas construídas pelo tatu podem chegar a cinco metros de comprimento, 1,5 a 2 metros de profundidade e 35 centímetros de largura. Os pesquisadores registraram que dentro da toca a temperatura se mantém constante (24 graus Celsius). “Com as mudanças climáticas e a tendência de aumento das temperaturas, as tocas de tatu-canastra podem ajudar as espécies a sobreviverem a essas mudanças e temperaturas extremas", explica Desbiez. Os registros da presença de outros animais na toca e no monte de areia foram feitos por cameras trap.

No final de 2019, o projeto passou a aplicar um novo componente técnico: um sensor de atividade dentro do dispositivo de GPS, que traz informações ainda mais detalhadas sobre a vida do tatu-canastra. Ainda em 2020, a equipe do projeto, por conta do uso de um novo grid de cameras trap, terá condição de monitorar possíveis interações sociais (animais que visitam a área residencial um do outro), reprodução, saúde dos tatus e indivíduos-chave que não são monitorados por meio de telemetria. 

Conquistas 

Entre os resultados da pesquisa do projeto Tatu-canastra, no Mato Grosso do Sul, está o reconhecimento da espécie entre os cinco principais mamíferos a serem usados como indicadores para o estabelecimento de áreas protegidas e de corredores de conservação no estado. 

As informações sobre os tatus ajudam na tomada de decisões sobre conservação e foram utilizadas, inclusive, na construção do Plano de Ação Nacional para o Tatu-Canastra, organizado pelo CPB - Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (CPB) e validado pelo Ministério do Meio Ambiente e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, em julho de 2019. 

Treinamento e diálogo com comunidades

Mais de 80 biólogos e veterinários já foram treinados pelo projeto, que se tornou referência para estudantes e profissionais interessados ​​em Conservação in situ. Cerca de 2.500 alunos de 50 escolas públicas no Mato Grosso do Sul, incluindo sete escolas rurais, já foram beneficiados com ações educativas do projeto. Por conta da pandemia, os materiais de educação ambiental estão migrando para o formato digital, uma iniciativa realizada com a Fubá Educação Ambiental – parceira do projeto há dois anos. 

Arnaud Anne WFNReconhecimento - As pesquisas do projeto Tatu-canastra levaram a BBC a desenvolver um documentário de 60 minutos Hotel Armadillo, da série Natural World, em 2017. O projeto também foi reconhecido com um dos maiores prêmios da conservação da biodiversidade, o Whitley Awards, entregue pelo Whitley Fund for Nature (WFN), pelas mãos da princesa Anne, da Inglaterra.

Outra frente é a utilização da metodologia da Ciência Cidadã como forma de obter informações sobre vestígios do tatu-canastra em áreas pré-determinadas no Mato Grosso do Sul. Dos 178 pontos com evidências da presença do tatu-canastra, 127 pontos foram indicados por meio do envolvimento dos moradores. “O diálogo com as comunidades, a partir dessa iniciativa, foi essencial para aproximar o projeto da sociedade”, reforça Desbiez.

 

Desafios e soluções

Entre as ameaças ao tatu-canastra estão: perda dos habitats naturais, caça, atropelamentos nas rodovias e a retaliação aos tatus pelos ataques às colmeias em pequenas propriedades. 

No Cerrado, os tatus correm reais riscos de extinção, já que se trata de um espaço amplamente fragmentado. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, há menos de 20% da vegetação nativa. “Potencialmente, os mamíferos de grande porte, como o tatu-canastra, são os mais impactados pelas rodovias; uma vez que se deslocam em grandes distâncias – pela fragmentação do habitat – o que aumenta a possibilidade de travessia nas rodovias e consequentemente de atropelamentos”, destaca Aureo Banhos, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), pesquisador do projeto. 

“A perda de apenas um tatu-canastra, portanto, significa muito para um ecossistema local. São agravantes a baixa taxa de natalidade e o grande intervalo entre as gestações, que no caso do tatu-canastra pode chegar a três anos. Como engenheiros dos biomas, sua extinção pode ter efeitos negativos em cascata na fauna local”, completa Banhos. O Cerrado é o recordista em atropelamentos da espécie, com 22 animais vítimas, nos últimos 14 anos. Só o estado de Mato Grosso do Sul teve 15 animais atropelados, nos últimos cinco anos. 

Outro desafio tem sido conciliar a conservação do tatu-canastra com a produção dos apicultores. Como as produções e colmeias ficam próximas às áreas florestais nativas, os tatus são atraídos até ali e destroem as colmeias para consumir as larvas. Muitos apicultores tiveram que adotar medidas mitigatórias para impedir a predação das colmeias, o que implicou, em um primeiro momento em investimentos. Atualmente, está em curso a criação do selo Apicultor Amigo do Tatu-canastra, que busca conscientizar e despertar orgulho pelo animal. “A ideia tem sido bem recebida pelos apicultores. Ainda é necessário estabelecer critérios de certificação e realizar mais pesquisas, mas acreditamos nisso como um passo interessante. Os apicultores trabalham nos remanescentes do habitat do tatu e outras espécies silvestres importantes e podem ser beneficiados pelo selo ao venderem seus produtos com essa chancela. O selo indica a responsabilidade deles em cuidar da fauna nativa e que pode abrir ainda mais mercados para a comercialização de produtos”, comenta Desbiez. O trabalho com os apicultores é realizado em conjunto com a Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (IAGRO – Governo Estado do Mato Grosso do Sul), a Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso do Sul (Famasul), entre outros parceiros.

Outro projeto que busca desenvolver nas pessoas orgulho pela espécie, foi iniciado em 2020, na região do Parque Estadual do Rio Doce, na Mata Atlântica. Com apoio do Whitley Fund for Nature, a pesquisa vai avaliar a viabilidade da população de tatus-canastra e envolver a população local para que a espécie se torne uma fonte símbolo dos esforços de conservação no parque. Por ser um animal raro, existe a possibilidade, segundo estudos, de que tais áreas sejam os últimos refúgios para a espécie na Mata Atlântica.

 

Na última semana de julho, nos dias 27 e 28, quatro monitores participaram da Capacitação Online para o Monitoramento do Pirarucu na região do Médio Juruá. O curso integra as ações de acompanhamento do IPÊ dentro do projeto Monitoramento Participativo da Biodiversidade (MPB) e do Programa Monitora/ICMBio. A capacitação teve como objetivo apresentar o protocolo de monitoramento do pirarucu e as orientações relativas ao preenchimento dos formulários com informações sobre a espécie, os ambientes de manejo e pesca. 


O monitoramento da biodiversidade também passa por uma série de adequações no contexto da pandemia. Desde março, por conta do isolamento social, como forma de dar continuidade ao trabalho, o IPÊ segue em contato com as comunidades de maneira remota. 

Os participantes do curso são da Reserva Extrativista (Resex) do Médio Juruá e da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, ambas Unidades de Conservação da natureza (UCs) no Amazonas. Para a realização do curso online, os monitores da comunidade São Raimundo (Resex Médio Juruá) contaram com acesso à internet na própria comunidade. Já os monitores da RDS Uacari participaram do curso na base da FAS - Fundação Amazônia Sustentável, na comunidade Bauana. 

Para Maria Cunha, monitora da comunidade São Raimundo (Resex Médio Juruá), esse trabalho de monitoramento é estratégico e tem potencial de trazer ainda mais benefícios para todos os envolvidos. "Os monitores locais têm mais intimidade para falar com os manejadores e obter as informações do manejo do pirarucu. O manejo precisa de um protocolo de monitoramento para auxiliar na organização do manejo do pirarucu. Toda semente que se planta no Médio Juruá cresce muito bem, acredito que o protocolo será assim também". 

O que é o protocolo do pirarucu? 

É um dos Protocolos que compõem o Subprograma Aquático Continental do programa MONITORA (IN nº 03 de 04/09/17), que consiste em um roteiro seguido pelos monitores que fazem levantamentos sobre a biodiversidade pelo MPB - Monitoramento Participativo da Biodiversidade, do IPÊ, e programa Monitora/ICMBio. O protocolo foi criado de forma participativa, com apoio de gestores de UCs do ICMBio e SEMA - Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Amazonas, manejadores de pirarucu, analistas ambientais do IBAMA,  pesquisadores e técnicos do IPÊ e parceiros. O protocolo do pirarucu está em fase de teste e aprimoramento, com a participação dos grupos de manejo de quatro UCs e uma área de Acordo de Pesca (Resex Unini, Resex Baixo Juruá, Resex do Médio Juruá, RDS Uacari e Área de Acordo de Pesca do Baixo-Médio Juruá), que colocarão todas as etapas em prática. O resultado desse trabalho será o desenvolvimento de uma ferramenta padrão para avaliar o status da espécie e a eficiência ambiental, econômica e social do manejo sustentável de pirarucu.

Os protocolos existem para que seja possível criar padrões de observação de controle capazes de serem comparados ao longo do tempo.

Sobre o projeto MPB

 

A atividade faz parte da parceria entre IPÊ e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), por meio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Biodiversidade Amazônica (CEPAM), que faz parte do Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (MONITORA), Subprograma Aquático Continental.

A iniciativa é uma atividade do projeto de “Monitoramento Participativo da Biodiversidade em Unidades de Conservação da Amazônia”, desenvolvido pelo IPÊ em parceria com o ICMBio, com apoio de Gordon and Betty Moore Foundation e USAID.